segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Saturações e manifestações


Um cidadão militar matou-se após ter feito o mesmo aos três filhos e à esposa. Testemunhas dizem que quando os meninos reclamavam por comida à mãe, a mesma viu-se obrigada a carrega-los ao posto de trabalho do progenitor, chegando ao local, o mesmo encontrava-se na porta da arma, questinou o porquê da presença deles, em reposta, a esposa apontou os filhos ao pai dizendo-os para cobra-lo alimentação. Como reacção, o cabo das Forças Armadas Angolanas, em Benguela, simplesmente usou a arma que dispunha para cometer tal infortúnio. Triste episódio.

Um grupo organizado constituido por estudantes universitários (as), zungueiros (as), funcionários (as) públicos e pessoas de outros extractos sociais, têm, frequentemente, realizado marchas nas mais diversas artérias da capital do país, reclamando direitos negados pelos que deveriam fazer cumprir os mesmos em sinal de descontentamento com o regime que governa a nação.
Manifestação é o acto de exprimir ideias ao público, vulgarmente feita de forma colectiva, enquanto que saturação é o estado de maior condensação possível.
As manifestações acontecem a todo instante e em qualquer local; nas escolas, em postos de trabalho, praças, hospitais, etc; mas saturações raramente acontecem publicamente. Como já supracitado, elas evidenciam-se num alto estado de condensação. O ser humano saturado age impulsivamente e repentinamente.
Na Tunísia, as manifestações começaram quando Mohamed Boauzizi, 26 anos, formado na Universidade de Mahdia, saturado, pós fim a própria vida. O jovem era licenciado, mas infelizmente não se encontrava empregado, trabalhava vendendo coisas nas ruas (zungueiro). Tirou a vida frente uma unidade governamental.
Após várias manifestações, por ordem do então presidente Ben Ali, alguns manifestantes foram mortos em pleno uso do seu direito. Tal situação desencadeou uma tremenda onda de revolução pelo país, sucedido com a saída do mandante dos crimes.
O Egipto sofreu fortes manifestações exigindo a saída do presidente Hosni Mubarak. Jovens, idosos e crianças estiveram empenhados na manifestação.
Líbia conheceu, recentemente, o virar da sua história com a morte do ex-líder Muanmar Kadhafi no dia 19 de Outubro. Outro exemplo do que um povo saturado é capaz de fazer para conseguir as suas dignidades de volta. Vejamos que os líbios eram um povo, do ponto de vista social, estável. Tinham acesso aos direitos fundamentais, mas ainda assim sentiam-se aprisionados em si mesmos, pois não tinham acesso a um poderoso direito do mundo actual, a liberdade de expressão.
Angola vive em estado de alerta, pois as manifestações têm acontecido de forma regular, como aconteceu com os países supracitados. O facto que aconteceu em Benguela é o exemplo de saturação deste povo. O regime angolano faz tudo e mais alguma coisa para que informações como essas não cheguem aos ouvidos de quem sofre com os mesmos males, por saber que espécie de reacções um povo é capaz de tomar diante de tais acontecimentos.
A tolerância neste contexto é o que se tem verificado como escape para as frustações. O povo angolano ainda receia outra guerra por sair de uma recentemente, mas o que este mesmo povo tem em mente é que, após o conflito, a paz tem matado, empobrecido, espoliado e esquecido mais gente do que a guerra. 
“Isso vai mudar”. Essa é a expressão vulgarmente usada para justificar o desagrado para com as intidades governativas que meteram na cabeça que Angola é deles.
Mas a tolerância é suplantada pela saturação, porque chega um momento que a paciência (tolerância) termina, dando lugares a fuga de identidade, isto é, fazendo as pessoas perderem o medo e o respeito. “Os limites pessoais são diferentes e variam de acordo com a experiência pessoal de cada um”, segundo Nvunda Tonet no seu livro “Psicólogos, porquê e para quê?”. 
As manifestações, no território nacional, até ao momento, têm sido pacíficas, mas temos de ter em contas que o ser humano é saturável, e como tal, a qualquer instante não existirá parâmetros a serem respeitados por encontrarem-se num estado de saturação ou perca da essência. 
A democracia existente na constituição está simplesmente a enfeitar o livro, pois a realidade é puramente ditatorial. “O Estado respeita e protege a vida da pessoa humana, que é inviolável”, diz o artigo 30º da constituição angolana. 
Mais de 15 crianças morrem nos hospitais por mês, apenas em Luanda. Onde está o cumprimento deste lindo artigo? 
Uma senhora apresentou o cadáver do seu esposo no largo da independência suplicando por ajuda para realizar o enterro do mesmo, nenhuma pessoa ou autoridade competente para tal ofereceu tal ajuda. O povo começa a ficar saturado de tanto desprezo aos seus direitos e violação da sua integridade moral e física.
Os constantes actos de suicídios, assassinatos e percas de personalidade, são o princípio e anúncio da saturação destes povos. O silêncio sepulcral é a maior acção repugnante que uma pessoa pode utilizar para expressar a saturação. 
Angola se prepare, vêm dias piores.

Sedrick de Carvalho

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